Pai de motorista que matou 3 pessoas pede perdão em nome do filho


O empresário Bruno Leal teme pela vida do filho dentro do presídio e quer que o jovem vá para uma clínica de tratamento / Foto: Léo Motta/JC Imagem

O empresário Bruno Leal teme pela vida do filho dentro do presídio e quer que o jovem vá para uma clínica de tratamento
Foto: Léo Motta/JC Imagem
Ciara Carvalho
ciaracalves@gmail.com

Apesar da consciência do sofrimento imposto a duas famílias que tiveram suas vidas dilaceradas, o empresário Bruno de Oliveira Gomes Leal, 51 anos, se recusa a enxergar seu filho como um assassino. Diz que João Victor vai pagar pelo que fez, mas precisa de tratamento. Em entrevista ao JC, a emoção o fez silenciar em vários momentos. Como pai, ele pediu perdão ao advogado Miguel Motta pela tragédia causada pelo seu filho.

JORNAL DO COMMERCIO – Como tem sido os seus dias após essa tragédia?

BRUNO DE OLIVEIRA GOMES LEAL – Eu estou sofrendo pelas famílias que sofreram, pelos que se foram, pela moça que estava grávida, pelos que estão no hospital. Acompanho todas as notícias. A gente se pega a Deus, só ele pode nos dar essa força. Pela própria doença do meu filho (dependente químico, segundo a família), eu vivia em constante atenção, cuidando e tratando. Já foram duas internações. Uma em 2014. Essa primeira, ele se internou a pedido dele. No final de 2015, teve uma recaída e a gente o internou de novo, em janeiro de 2016. Ele saiu muito bem, passou a ter assistência do psicólogo, a se medicar. E a gente acompanhava as reações, as amizades. Ele vinha muito bem, trabalhando comigo. Mas o álcool foi a porta de entrada dessa última recaída.

JC – Como o senhor soube da colisão?

BRUNO – Eu recebi uma ligação da mãe dele, que foi acionada pelo Samu. Ela disse que ele tinha sofrido um acidente e tinha ido para a UPA da Caxangá. No caminho, começaram a chegar as informações pelas redes sociais, dizendo que tinha sido uma vítima, duas. E a gente começa a entrar em parafuso, começa a sair do chão, sem raciocinar direito e querendo ver o filho da gente. Na UPA, ele estava de cabeça baixa, como se tivesse em transe. Quando me viu, disse: pai. E me abraçou.

JC – Como o senhor vê as reações em relação ao seu filho?

BRUNO – Quem está de fora recebeu uma quantidade enorme de informações negativas. Só sabe que uma pessoa bateu no carro, acabou com uma família e é um criminoso irresponsável.

JC – E o seu filho é isso?

BRUNO – Ele não é nada disso. Meu filho começou a beber com 14 anos, muitos começam ainda mais cedo. É uma doença, está provado. Mas João Victor é um rapaz espetacular, atencioso, carinhoso, caridoso. O que estão dizendo dele é muito forte. Meu filho não é um criminoso. É um menino que se envolveu com drogas e se tratou. E que, infelizmente, teve essa recaída. Ele não provocou essa tragédia conscientemente.

JC – E qual é o seu julgamento como pai?

BRUNO – Meu julgamento é que meu filho errou, mas, como eu tenho conhecimento da doença dele, eu sei também que ele não fez isso por querer em nenhum momento. Ali ele não era mais ele. Ele estava em um nível mental transtornado. Eu garanto a você que se ele pudesse optar entre ele morrer e a família viver, ele optaria por morrer.

 JC – Há boatos de que ele já causou outros acidentes. Isso é verdade?

BRUNO – Ele nunca se envolveu em nenhum acidente. Victor não tem antecedentes criminais. O que aconteceu com ele é que ele foi abordado pela polícia quando fumava maconha com um amigo. Respondeu a um TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrência) e foi liberado. De uma outra vez, houve uma discussão com um vizinho por causa de um carro estacionado. Mas ele não agrediu ninguém. Essa queixa também foi arquivada.

AMEAÇAS

JC – Vocês têm sofrido ameaças?

BRUNO – Indiretamente, sim. Estamos sendo alvo de perseguições. Pessoas perguntando quem eu sou, onde eu moro, o que eu faço. Acusando e ameaçando meu filho abertamente nas redes sociais.

JC – O senhor teme pela vida dele?

BRUNO – Claro, até porque só o que se falava é que, quando ele chegasse no presídio, iam bater, linchar, matar. Desde domingo eu não sei o que é dormir. Eu tenho medo por ele estar no presídio. Que ele vai pagar pelo que ele fez, ele vai, porque existe uma consequência. Mas vamos tentar levá-lo para uma clínica de tratamento, para que ele pague pelo seu erro, mas sem desconsiderar a doença que ele tem. E que ele possa ser tratado. Eu só quero ele vivo. Se eu pudesse estar no lugar dele hoje na prisão, eu trocaria de lugar com ele.

JC – O que o senhor gostaria de dizer para o advogado Miguel Arruda, que perdeu a mulher, o filho e está internado junto com a filha no Hospital Santa Joana?

BRUNO – Como pai, na situação dele, que perdeu os entes queridos, eu não reprovaria por ele ter ódio do meu filho, raiva, e até de mim e da minha família. Ele está no momento revoltado, ele tem o direito de estar revoltado. Ele está sofrendo muito, não só ele, como toda a família. Mas eu tô sofrendo muito também. Não só pelo meu filho, mas por ele, pela família dele e pelos filhos dele. Eu peço perdão a ele. Se valer de alguma coisa. Jamais eu queria que isso tivesse acontecido.